e sendo preto
acreditando ter talento
na escola
no momento em que a bola
me tocasse os pés
e sendo preto
nordestino
americano
na escola
no momento em que tocasse
um instrumento
a alforria
não seria revelia
nem secreto
nem seria ilusão
de qualquer preto
a euforia
desse reconhecimento
pelo branco barulhento
que consome a alma do preto
no último tempo
quando dá um toque frumento
faz o gol
é um alento
o preto é rei e não é preto?
no último tempo
é bem sabido que o preto
ginga bem com seu talento
natural de capoeira?
e sendo preto
acreditando no talento
na escola
instrumento musical ou futebol
é tudo preto
divertir
coisa de preto
preto é bom leitmotiv
para intelectual?
neste país onde o preto
forma um degradê bonito
começando pelo jambo
que o índio nos doou
o branco sendo furta-cor
é outro tom
não diz respeito
fiquem
com seus pigmentos
seus gametas
seus proventos
que a história
debitou do preto-preto
e na global
aldeia branca
os zigotos loucos pretos
dançam samba
e se entristecem
ouvindo blues
tocando jazz.
j. a. pelegrina, 02.07.94
severianus
que foi homem mundano
se tornou religioso
pelos pés de um pastor
severianus
dá o dízimo nos panos
por debaixo sem engano
porque deus lhe dá amor
severianus
só tomou esse caminho
porta aberta foi entrando
nunca mais se desgostou
severianus
homem bom de cruz e cova
como todo severino
vai compondo sua obra
severianus
tem pastor e tem patrão
que mais quer severianus
se tem circo e se tem pão?
severianus
vai morrer cheio de si
de canseira ou de velhice
e vai ter muita oração
severianus
já quitou o INSS
no altar pagou com prece
mas no céu eu não sei não!
severianus
formiguinha e pelicano
severino todo ano
serve a quem, severianus?
j. a. pelegrina, 02.10.1998
Cortadores de Caña - Bryan Orquiza
O trabalhador é tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais cresce sua produção em potência e em volume. O trabalhador converte-se numa mercadoria tanto mais barata quanto mais mercadorias produz. A desvalorização do mundo humano cresce na razão direta da valorização do mundo das coisas. O trabalho não apenas produz mercadorias, produz também a si mesmo e ao operário como mercadoria, e justamente na proporção em que produz mercadorias em geral.
Karl Marx
Gravata alfinetada, bom sapato
Perfume lá de França malinvejada
O carro, o celular, no almoço um prato
Sobre a toalha de linha alvejada
Esse um trabalhador; o outro um trapo
Com holerite, sudorese, impigem
Protagonista de RH, um tropo
Mal colocado que as fábricas fingem
Cuidar com CIPA, SIPAT, VT
DSR, CAT, CLT
E um salário pro televisor
Coisa que todo operário tem!
Com fantasmas globais, pois que também
Ninguém pode viver só de amor.
j. a. pelegrina, 17/03/97
T. A. Z - Temporary Autonomous Zone
Na blogosfera
curvilínea
as feras lutam
para impor
em linha reta
as incertezas
filigranadas
em esferas
de coalhos
libertários
Que se perdem
que se ganham
nas evolutas
da Web 2.0
atazanando
autoridades
com a T.A.Z.
por trás dos bits
e zás-trás
de urls semoventes
Cibernautas
surfam
cristas digitais
e se abscondem
não por medo
mas por onde
possam resguardar
o copyleft
de outras transas
nada geniais
Não pense disto
um imbróglio
reverberante
de confundi-lo
in-blog-you!
Você já tem
um repertório
ciberculto
místico-socializado
em self media?
Não faremos da blogosfera
réstia para espantar vampiro!
Mas filigranas de idéias
Que nos interessem – eu prefiro!
j. a. pelegrina, 19/09/2008
um beija-flor
o outro não beija nada
nem a fêmea imaculada
nem a flor que solitária
murcha com a falta do beijo
que beija-flor que nada
açúcar ou mel e dor
para enfeite de parede
para alegrar a meninada
foi engaiolado com amor
com amor! sim senhor!
só beija flor de plástico
virou pássaro monástico
severino-beija-flor
numa gaiola de ouro
voa menos do que besouro
e diverte o garimpeiro
cadê o beija-flor?
alguém surpreendido...
será que serviu ao gato?
o vizinho estupefato
um tanto emputecido
gritou em vão:
morreu, meu deus...
com o amargo do almeirão
j. a. pelegrina, 24/02/97
Andam em bando
motorizados
em reles máquinas.
Se acham; mas não são
mais do que escória
que entopem o Aricanduva.
Aricanduva...
Radial...
Sampa às pampas
Motoristas, uni-vos!
Lá vem a besta
cheia de multas, mas incólume!
Retrovisores, encolhei-vos!
Lá vem ferro
sola e luva truculentos.
Dedos em riste veementes
Indigitam
nosso espaço inexistente
Motoboy
Mad Max
Punk do Agreste
Cacos de bosta
nos logradouros
da megalópole
Algum Deus ouvirá
nossa prece
na cloaca do ferro-velho.
j. a . pelegrina, 06/12/2006
a vida
uma tipóia encardida
prestes a se romper
tentou vender o corpo
acabou em leilão
de massa falida
gasolina ingerida
o fiscal do crematório
rejeitou o corpo
um cão caminha
numa tripata
e se urina de tristeza
o sertanejo garante
desta água
não beberei
roleta russa
feericamente salvo
pela culatra
caixa de papelão
o gari: "no caminhãããão?"
o papelão: "nãããão!"
na gaiola de ouro
um pássaro alegra
o dia do garimpeiro
em casa de tolerância
tolerar em abundância
custa mais caro
o guilhotinando indaga
“beberei do suor
de meu rosto?.“
j. a. pelegrina, 19/03/97