Coloque a vassoura no colo
E pense no que ela significa
No seu colo como vassoura
Pense no seu colo como algo
Que significasse para a vassoura
E o que significa colocar sem
Que haja momento azado
Nas asas de um vôo encalacrado.
Pense na desordem da piaçaba
Perdendo-se na chã dos tempos
Hoje de asfaltos descolados
Da natura benfazeja latinizada
Pense na desordem deificada
Nas clausuras monetárias dos anjos
Dentro de cofres esotéricos
O que significa isto para a vassoura
No seu colo ou varrendo coisas?
Mas ela no seu colo é menos
Objeto tanto e pouco de vassoura
Outros quinhentos e não aqueles
Que se quisessem objeto sem frêmitos
Pega e varre inclusive a exaustão
Além da poeira e seixos e galhos
E galhofas do seu pensamento
E folhas secas de outrora e não essas
Sadias de um verde que não se perpetua
Vassouras marchando em riste
E outras - vindas de roldão
Não para limpar o chão de um sujo incerto
Que não lhes vale a porcaria da liça
Mas um tropel leporídeo carregando
Um ovo polvoroso no dorso negro
Que um dia explodirá no colo de um incauto.
Minha pele amarelou
Sou poeta do sertão
Quando o céu azulejou
Ressecou meu coração
Até o sangue se escoou
Pelas veias do sertão
Minha pele amarelou
Sou poeta do sertão
Minha pele enrugou
Mas o meu sobrolho não
Pois quem já se acostumou
Com a seca do sertão
Faz no pó o seu poema
Com o dedo indicador
Pois que dura toda vida
Como o verdadeiro amor...
No sertão, moço, nem vento
No sertão, moço, nem água
Só tem mágoa e pensamento
Na comida e na comida
Eta nostalgia braba
Eta vida descabida
Desespero e oração
No sertão têm mesmo tom
Sol e dó e sol e dó
Boi berrando não tem mais
Boi morrendo e cafundó
De vez em quando um capataz
Vou é repetir o tom
Sou poeta do sertão
Minha pele amarelou
Como o verdadeiro amor
Valentia e teimosia
Sertanejo tem de sobra
Pra cumprir sua desgraça
E compor a sua obra
Seu destino ninguém traça
Herói do caos
Pele de cobra