quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Borboletinha Amarela – (Arco Ascendente)

a borboleta que não sei
de vôo em vôo
na corola se esbalda
e se esquece

como é lume
como é bela
sobretudo a amarela
me arrebata

se enfraquece
com o tempo
desde quando
a crisálida rompera

a borboleta tão bem feita
pelas mãos
de um designer
deus-esmero

quase ateu me desespero
espero outra borboleta
em meu neurônio petalado
à frente de qualquer neuroma

que me traga
alvissareiras
pelo que tenho de viço
quase vício
alça de grifo

minha unívoca voadora
que vexame não me causa
o teu panapaná
para lá e para cá
e eu tão só

j. a. pelegrina - 01/03/2003

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

sábado, 20 de novembro de 2010

Mondrian – (Arco Ascendente)

shapiro enxergou
humanidade
na assimetria de piet

sem piedade
deslindou o stijl

seu estilete
dissecou
mas não feriu

não odiou a ortopraxia
de doesburg
suas inclináveis

amou o toc de hpb
na cuca de mondrian
e o jazz soando aleatórios

branco
cinza
preto

amarelo
azul
vermelho

o espírito ortogonal
coreografa
além das molduras

sobe e converge
perpendicular
enigmático

mais que um quadro
uma composição
no espaço-tempo arcaico

do ponto ubíquo
ao ab ovo do universo
o estilo futuro

mais que esse design
desígnio do eterno
artefato de deus

j. a. pelegrina, 07/07/2006


www.mondrian.kit.net

Lupanar (Arco Descendente)

Nos lupanares
da antiga Caxemira
mulheres seqüestradas
atiravam-se
aos cafres
e dançavam
e bebiam
e oravam
em bantos dialetos
desde a chegada
até quando
a aurora
se esbaldava em rosicler.


Não eram mulheres
mas mulheres
e as mulheres
e os mulheres
de fazer valer
inveja a Safo
de Lesbos
e das raves hodiernas
não avistavam
entre cálices de cobre
e terra de caulim
o gemido
grave do agudo.


E a história se repete
e os estertores
se repetem
nas criptas urbanas
repetem-se os gozos
e as orações
não se resignam
misturam-se
o que se goza
o que se reza
nos arcos e escadas
nas lidas
e revistas
escandalizam
o discreto lupanar.


j. a. pelegrina, 19/11/2010

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Mercadores de Idéias (Arco Descendente)

Tive uma idéia
mas ela não vale nada
não vale o que propõe
não vale o que supõe
vale quanto pesa seu dono
frugal de dar dó
de valer-se da fome
e do pensar

Se eu fosse
Pedro Honório Duarte
mercador de idéias
de fazer Ciência e Arte
vulgo PHD...
nas cercanias da academia
fazendo arte na voz da mãe
Mas, não...

Meus corolários
são dedutivos demais
para a modernosa intelligentsia

Minhas premissas
musgo ordinário
esquecido nos idos de Aristóteles
sabe a realidade

Realidade é coisa que dói
e dá pouco dinheiro
porque não há quem a queira
de tão virgem
de eletrodos, bits e papéis

E os mercadores de idéias
não perdem tempo, não!

Os mercadores de idéias
sabem do desejo
sabem criar desejos e sonhos
cunhar moedas de pesadelos
trocadas
nos balcões de lenitivos
da botica do Senhor PHD

E a ironia come solta, velho
porque sustentar diálogo
não é pra qualquer pensante
mal sabedor do querer
do seu e do alheio em algures

O bom pensador
não teme do pensar alheio
o visgo e a fisga
- suporta riqueza e brisa

Sustentar diálogo
é amar ciência e arte
técnica e religião
é amar a inteligência coletiva
e o estertor individual
é amar-se a si e o alheio
como quem veio
para compreender
a arte
de ser
ego
e...

a arte
de ser
alter.



j. a. pelegrina, 18/08/2010

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Pramodescansar (Arco Ascendente)

o homem lúdico
é lúcido
porque é lúdico

o homem lúcido
é lúdico
porque é lúcido

bebe e não cai
fuma e não tosse
vai e não vai
pesca no ar
a mística da vida
o símbolo peixe

do oiapoque ao chuí
a picardia é sã

tarda e não falha
calha e não tarda

na ginga do corpo
no gênio da língua
cava o pão

no fim de semana
cava o pênalti

pescador inato
o homo-brasílico
aguarda na proa
o peixe no prato
teleguiado
pular numa boa

j. a. pelegrina, 01/11/1995

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Blasé (Arco Descendente)

Gosto mais de uma garrafa de vinho que de um poema, mais de um beijo que do soneto mais harmonioso. Quanto ao canto dos passarinhos, ao luar sonolento, às noites límpidas, acho isso sumamente insípido. Os passarinhos sabem só uma cantiga. O luar é sempre o mesmo. Esse mundo é monótono a fazer morrer de sono.
Macário – Álvares de Azevedo
Jogado na calçada
Camisa amarrada ao pescoço
Dois PMs na cabeça
Fazendo alvoroço
Na madrugada quente

O meio fio interminável
Silenciava minhas lágrimas
Fortalecia minha mágoa
Por azar inacabada
Desde a nascente de Outono

Se houver Natal e Carnaval
Se houver do que rir e chorar
Pouco me importa a Tempestade
Quando aguar o meu conhaque
E apagar o meu charuto

Vulto retinto de tanta sombra
Sem frio, calor ou ímpeto
De mágoa um pouco airado
Ciente de mim e completo
Duradouro, porém finito

Na madrugada quente
Fazendo alvoroço
Dois PMs sem cabeça
Jogados na calçada
Camisa amarrada ao pescoço


j. a. pelegrina, 05/08/2010