sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Burundangas (Arco Ascendente)

Quem era massa
Hoje está nessa desgraça
Pouca paz e muita liça
Muita raça e pouco pão

Quem era leve
Hoje tem o que lhe pese
Sai pagando o que não deve
Dizimando o galardão

Quem era oxóssi
Hoje chora no peji
E beija boca do siri
Pra não mais comer sabão

Quem era louco
Pra ficar famoso e rico
Não descola nem um circo
Pra dar banho em leão

Quem via o céu
Hoje só vê urubu
Pensa que é o uirapuru
Oferecendo uma canção

j. a. pelegrina, 19/05/2000

Ausência Expressionista (Arco Ascendente)

Como um louco
Um desvairado consciente
Um policial noir da zona leste
Num dia de sol poente
Tarde luminosa
De crepúsculo esfaimado
Juntei numa tralha
Meus estorvos tecnológicos
Joguei no terreno baldio
Meti o pé em cima, ergui o braço
E gritei para que me ouvissem:

- Tecnologia de bosta
- Do marketing agressivo
- Das crueldades de mercado
- Das transnacionais escravocratas
- Das hipocrisias constituídas

Gritei aos meus vizinhos
De quarenta anos vividos
Pobres como eu
Periféricos como eu
Cultos e incultos como eu
Pedi ao meu Deus
Que não me considerasse blasfemo
Pedi aos meus amigos
Que me abandonassem um pouco
Pedi aos meus filhos
Que me compreendessem mais
Pedi a minha mulher que se calasse um minuto
E depositei em meus ombros
Responsabilidades vicinais

Não quero saber da áfrica
Não quero saber da Ásia
Não me interessam tsunamis
E pobres afogados na fome
Pouco me importa a globalização
Estou cansado, muito cansado
E tenho vontade de chorar
Mas sou fodido macho de bordoadas
De não sentir dor qualquer

Interessa-me apenas o que sou
Estou farto, mas não gasto
Não sinto gastura qualquer que me encrua
Sinto-me livre como nunca

O que sinto é uma ausência
De terras e árvores e águas com peixes
E pássaros que cantam
E cigarras vespertinas e vagalumes
E grilos incautos e grelos noturnos perfumantes
E ruas sem asfalto e sem calçadas
E músicas e tintas do tempo
Que se consideravam arte
Alimentos de almas refinadas

Sinto um vazio de algo
Que não sei explicar
Não sinto medo, sinto ausência
Sentir ausência é pior
Do que sentir qualquer outra coisa.

Devo continuar estes versos?
Não terminaria nunca...
Pois o que sinto não tem começo
Tampouco fim.

Há um sentir apenas
Coisa errante - e pronto.


j. a. pelegrina, 10/11/2009

São Mateus (Arco Ascendente)

Quem disse que São Mateus é biboca?
E disse que além de biboca
É broca viver com os manos?
Quem disse, não suportará porrada!
Não é porrada tanta, mas esporro na alma.

Porque os caras chegam junto?
E assaltam no semáforo?
E compram a pedra louca
Que não é pedra angular do sistema vigente?

São Mateus é pedra de função
E pedra de função
É o risco de viver feliz
Mesmo o trampo raro matando de fome
E a pilantropia temperada de água benta.

São Mateus não é Higienópolis.
Como quem pensa que a guerra
É Higiene do mundo
De fazer passar bem higienopolitanos
Que também cheiram, viu moço, e defecam
Na mesma louça onde cagam os pobres.

A guerra dos roses?
A guerra dos browsers?
A guerra quente e fria?
A guerra etnosafada
Que esmerilha a raça!

São Mateus morre de alegria
De saber-se sã
Entre bichas, anarquistas, democratas,
Conservadores, cibernautas e gente simples
Que sabe ganhar dinheiro honestamente:
Professores, comerciantes, jornalista, catadores
De papelão, de lata, de ilusão e doutros, Viu?

- Cala a boca, borrabotas!

j. a. pelegrina, 08/11/2008


sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Tutti Frutti (Arco Ascendente)

Há quem goste de goiabas
- Goiaba!

Há quem goste de bananas
- Banana!

Há quem goste de frutas
- Frutinha!

Há quem não goste...
E há quem goste de fruta-pão
- Pão!?

Há quem goste de fruta de plástico
Que de nada serve...

Há quem goste de jacas e abacaxis
Infrutescências
Bagos de Baco

E há clitóris maduros
De perfume inefável
- Minha fruta predileta!

Sem o óleo do abacate
Sem o ácido do limão
Sem o açúcar da atemóia
Sem os pelos do kiwi
Sem a revolta sumarenta da melancia

Fruta equilibrada
Ora tenra, ora firme
Perfumada de aroma incólume
Que não se come
Que não se chupa
Como se fosse qualquer fruta

Fruta enorme
Nanofruta
Do conde?
Do diabo?
Da ema?

De Deus!

j. a. pelegrina, 23/03/2007

Certos Tempos (Arco Descendente)

Eram os templos
das víboras descalças
das tarântulas em fogo
do triângulo da morte

Eram os templos
da carne posta à sorte
pela peste galopante
dalgum ser que galopava

Eram os templos
onde ali não se amava
só de gozo se morria
o guerreiro plutocrata

Eram os templos
de abóbadas purpúreas
e calçadas reluzentes
aquecendo genitálias

Eram os templos
das palavras que enganavam:
multimídia, massa, merda
lerda, lassa - ludibriavam

Eram os templos
dos pacotes - não das árvores
dos pinotes dos algozes
socorrendo condenadas

Eram os templos
dos juizes maltogados
casamentos malogrados
enlouquecendo velhos padres

Eram os templos
descaindo no espaço-
-tempo curvo do umbigo
e dos lábios que grelavam

Eram os templos
em falos formatados
que ruíam em certo tempo...
carnes, cornos, cus e ralos

j. a. pelegrina, 24/03/99

Medonho – (Arco Ascendente)

Há algo de medonho
deixar meus truques na gaveta.

Há dias que não sei lidar com meus ardis.
Até bebo cidreira no chá diário
e abro mão da anfetamina.

Precisava anunciar-me,
e há o medo - não do deslize -
mas em ser-me demais,
além de mim,
o fantasma não compreendido.

Queria plantar uma semente qualquer
e não há terra que suporte a fenda,
o encharque, o revirar do húmus
e o sol escaldante, contingente, saboroso
a calhar no canteiro do quintal esquecido.

Há algo de medonho,
e não quero desfalecer perante meu Pai.
Não quero pensar que o céu é Dele
e meu o inferno que Ele deixou e devora
com seus misteriosos permissivos.

Há algo de medonho
deixar meus truques às traças.
Vou virar, violento, a vã gaveta.
E o que cair, caiu.

E um santo qualquer que me beije a boca
e me guarde em seu coração
virgem de conflitos humanos;
para que eu me humanize
mas não me angelifique perante
seres normais.

j. a. pelegrina, 24/07/2008

Desabençoado (Arco Ascendente)

(É tudo o que dedico a mim)
Eu que me desabençoei no peji
Fiz a cabeça e corri pra encruzilhada
Tornei-me rei perante a comunidade
Curti e esqueci a vida malfadada

Agora não sei o que fazer comigo
Eu sofro perdido numa floresta negra
Iaô não quer brincar com meu umbigo
Ogum me disse que perverti a regra

Quando criança eu era mais que anjo
Adolescente, ardi de ardente fogo estranho
Não sei se derreto a bigorna ou o martelo

Um dia serei dos tempos de antanho
Talvez mais sábio, com certeza menos belo
Dessa beleza de vida que esbanjo

j. a. pelegrina - 12/06/2007