Apareceu-me a Morte
e me disse para não desesperar
- Não desesperar?!
Apareceu-me a Vida
e me disse para não desesperar
- Não desesperar?!
Apareceu-me o Vazio
e julguei ser o Demônio.
O pior da teogonia dos Caídos!
Todos eram Deuses?
Todos eram Deuses!
O Deus-Vazio...
pior que Deus-Morte!
pior que Deus-Vida!
O Deus-Privilégio
manteve-se calado
por algum momento...
Momento do Deus-Silêncio
que ora mantinha a diocese
Finada a Quietude
filha do Deus-Silêncio
descobri-me Deus-Qualquer
Pleno de alegria
jungido por Deus-Júbilo
dispersei os Titãs
para alegrar masmorras
- moradias do Deus-Funesto
Filho do Deus-Liberdade
chorei, gargalhei, apazigüei
o que em mim era turbilhão
e nem era mal cultuar
Fechei os olhos em paz
e não dei bola
para o Deus-Receio.
j. a. pelegrina, 10/09/2010
a borboleta que não sei
de vôo em vôo
na corola se esbalda
e se esquece
como é lume
como é bela
sobretudo a amarela
me arrebata
se enfraquece
com o tempo
desde quando
a crisálida rompera
a borboleta tão bem feita
pelas mãos
de um designer
deus-esmero
quase ateu me desespero
espero outra borboleta
em meu neurônio petalado
à frente de qualquer neuroma
que me traga
alvissareiras
pelo que tenho de viço
quase vício
alça de grifo
minha unívoca voadora
que vexame não me causa
o teu panapaná
para lá e para cá
e eu tão só
j. a. pelegrina - 01/03/2003
Tive uma idéia
mas ela não vale nada
não vale o que propõe
não vale o que supõe
vale quanto pesa seu dono
frugal de dar dó
de valer-se da fome
e do pensar
Se eu fosse
Pedro Honório Duarte
mercador de idéias
de fazer Ciência e Arte
vulgo PHD...
nas cercanias da academia
fazendo arte na voz da mãe
Mas, não...
Meus corolários
são dedutivos demais
para a modernosa intelligentsia
Minhas premissas
musgo ordinário
esquecido nos idos de Aristóteles
sabe a realidade
Realidade é coisa que dói
e dá pouco dinheiro
porque não há quem a queira
de tão virgem
de eletrodos, bits e papéis
E os mercadores de idéias
não perdem tempo, não!
Os mercadores de idéias
sabem do desejo
sabem criar desejos e sonhos
cunhar moedas de pesadelos
trocadas
nos balcões de lenitivos
da botica do Senhor PHD
E a ironia come solta, velho
porque sustentar diálogo
não é pra qualquer pensante
mal sabedor do querer
do seu e do alheio em algures
O bom pensador
não teme do pensar alheio
o visgo e a fisga
- suporta riqueza e brisa
Sustentar diálogo
é amar ciência e arte
técnica e religião
é amar a inteligência coletiva
e o estertor individual
é amar-se a si e o alheio
como quem veio
para compreender
a arte
de ser
ego
e...a arte
de ser
alter.
j. a. pelegrina, 18/08/2010
o homem lúdico
é lúcido
porque é lúdico
o homem lúcido
é lúdico
porque é lúcido
bebe e não cai
fuma e não tosse
vai e não vai
pesca no ar
a mística da vida
o símbolo peixe
do oiapoque ao chuí
a picardia é sã
tarda e não falha
calha e não tarda
na ginga do corpo
no gênio da língua
cava o pão
no fim de semana
cava o pênalti
pescador inato
o homo-brasílico
aguarda na proa
o peixe no prato
teleguiado
pular numa boa
j. a. pelegrina, 01/11/1995