Deixe-me correr
por este trilho aqui...
Com licença, meu chapa,
não tenho graxa nas rodas.
Vou em frente
porque não há tempo a perder...
Sou de aço e tinta
não tenho pinta de malandro
mas atropelo o vento
que lhe invade o pulmão
e não desmancha seus cabelos...
Sai da frente, irmão.
Leva este conselho,
mais sutil que útil:
vele a paisagem morta!
Porque os dormentes se multiplicam
e eu não tenho preguiça de viver.
j. a. pelegrina, 09/04/2010
Que não me perturbe
o que escrevo.
Que eu não escreva
por ocasião.
Que eu não me torne
escravo do que escrevo.
Que se tornem diárias
minhas palavras de esquema:
cause ou não polêmica
a quem ler minha intenção.
Que minhas palavras
não cravejem nossos corações.
Criá-las-ei diariamente
nossas palavras
sem perturbação.
j. a. pelegrina, 10/03/2010
Estou empanturrado de Religião.
Estou empanturrado de Ciência.
Estou empanturrado de Arte.
Estou vazio da amálgama das Três.
Estou vazio do Uno - sou apenas Um.
Estou Um-Todo-Vazio.
Estou vazio da magia do inconsútil
para onde tudo converge.
j. a. pelegrina, 05/05/2010.
As piores mulheres
danarão a Terra
o Homem e a Prole
As piores mulheres
farão da Guerra
o que lhes console
Serão mais livres
serão mais ricas
serão mais moles
Serão bonitas
e movediças
terão mais dólares
Farão do sexo
xilocaína
para seus homens
Escravocratas
desnorteadas
em grande número
Psicopatas
desbordadas
- mulher sem útero?!...
Espalharão
doença e fome
em nome de Deus...
Longe do lar
vestida de grana
espinafrada
A pior mulher
terá vislumbres
de seu sumiço
A pior mulher
um aleijão
de um Deus qualquer
De algum jornal
tv ou net
revista ou vício
Desalojada
a pior mulher
sem Evoé?
Se Deus quiser
pelo estro de Deus
um Deus qualquer!
j. a. pelegrina, 22/08/2004.
(Então, Dona Imundícia? Cai pra dentro!)
A injustiça do mundo!
O que faço com ela?
Sinto seu cheiro...
Olho em seus olhos...
Abalroo sua derme
E sinto sua existência
Maior do que a minha.
Ela possui todos os sentidos
E todas as armas contra mim
A injustiça do mundo
Essa hermafrodita oleosa
Lés a lés e semovente
E especialmente bela
Aos olhos de seus filhos
O que faço com ela?
Sinto seu cheiro
Olho em seus olhos
Que me hipnotizam
Olhos de mormaço...
O que faço para esquecê-la?
Convivo com todos seus adjetivos.
A injustiça silenciosa do mundo retumbante.
A injustiça do mundo, véio!
A injustiça do mundo, mano!
A injustiça do mundo, tio!
A injustiça do mundo, irmão!
A injustiça do mundo, doutor!
A injustiça do mundo, excelência!
A injustiça do mundo, amigo!
A injustiça do mundo, pai!
A injustiça do mundo, filho!
A injustiça do mundo, espírito santo!
A M É M, M Ã E!!
j. a. pelegrina, 09/04/2006
Você mora dentro de mim, tristeza
E a beleza da solidão é feia
Sempre que me sinto incoerente
Mas não vou romper a veia
Quebrar o vaso onde bebo sentimentos
Há momentos bons e outros
Que não serão lembrados
Em dias de alegria descomunal
Atear fogo agora é tarde e fortuna
Há dunas e diques
Perfazendo orlas e muros
Há ventos e furos
Tanta coisa indene no mundo
Resgatada do meu ódio inconveniente
As águas virão suaves
Prosopopéias de algas e sais
Mais do que magia, coerência
Da felicidade que virá habitar em mim
j. a. pelegrina, 24/08/2006
um bêbado desliza
não anda quando pisa
impetuosa a brisa
o atira na parede
um lúcido o inferniza
a noite o inferniza
a vida o inferniza
a fome a dor e a sede
parece-me um triste
a vida é mesmo triste
o meu olhar é triste
pondo-me a contemplá-lo
não sei se deus existe
se o bêbado existe
se a justiça existe
por isso eu me calo
um bêbado um louco
eu parecendo louco
não vou eu não sou louco
salvar aquele trôpego
espero mais um pouco
eu sei que pouco a pouco
a paz virá e um pouco
lhe haverá de fôlego
um palmo de justiça
a terra por justiça
a véspera justiça
que nunca está presente
caprichos da sevícia
o viço da sevícia
a terra por sevícia
enterra outra semente
adeus à personagem
de quem a personagem?
o autor da personagem
obliterou o enredo
estúpida viagem
viver pela viagem
sem escolher viagem
que só nos causa medo
j. a. pelegrina, 27/06/97